dailyvideo

Coletiva com MV Bill

MV BILL “É impossível falar do hip-hop sem abordar os temas de raça e exclusão social. São eles que compõem o estilo hip-hop”.


Ao final da coletiva, MV Bill conversou com jornalistas:

Como você acha que é o rap é aceito pelos jovens?

Na verdade, ele é muito aceito e ouvido pelo jovem da periferia, e depois aconteceu uma reviravolta e o jovem de classe média passou a ouvir. E em muitos casos o jovem de classe média está tendo uma mudança de comportamento. Comecei a reparar isso nos shows e ver que quando eles vão a shows de rock têm um comportamento e no show de rap têm outro. Quando isso acontece, eu acho positivo. Mas quando ele vê no rap a oportunidade de ficar rico, famoso, tomar o lugar do preto no palco e, automaticamente, fugir dos conceitos do hip-hop eu acho ruim.

Como você acha que o hip-hop pode mudar a vida das pessoas?

Assim como mudou a minha. Antes do hip-hop eu era uma pessoa que eu posso considerar um alienado, um otário, não tinha nada para mostrar para ninguém, nem para mim mesmo. O hip-hop faz com que a pessoa deixe de agonizar e passe a respirar, se sentir gente, se sentir um agente da solidariedade. Depois que eu assimilei o espírito do hip- hop, o espírito de combate, eu comecei a propagar isso para as pessoas, achei que aquilo deveria ser ouvido por todos. No início do meu trabalho eu chegava a comparar o meu trabalho com o dos evangélicos, de pregar nos espaços públicos. Pregava o hip-hop achando que era a solução para as pessoas. Continuo achando. No dia que eu deixar de achar que o hip-hop salva, que transforma, eu vou fazer outra coisa.

Qual os principais resultados do seu trabalho na Cidade de Deus?

A maior felicidade que eu tenho é chegar na Cufa e ver um monte de criança saindo do ócio, mexendo no computador, igual todo mundo, vendo essa máquina como uma coisa normal, e não tão distante. Ver os jovens com filmadora na mão. Meu último videoclipe foi dirigido por alunos formados no curso de audiovisual. Vi eles dirigindo como Breno Silveira já me dirigiu. Isso me deu orgulho muito grande, senti como se a minha missão no hip-hop estivesse quase cumprida.

Muitas iniciativas comunitárias vieram ao Fórum, como o Ceasm, o Comitê Comunitário da Cidade de Deus. Como você vê a presença destas ONGs no FSM?/

Eu fico feliz porque eles nunca foram participativos. Não porque não quiseram, mas porque nunca tiveram oportunidade. A ausência da contrapartida do filme “Cidade de Deus” despertou a necessidade de fazer alguma coisa a mais. Então saber que tem gente da Cidade de Deus aqui no Fórum faz eu me sentir representado como Alex, morador da comunidade, e não como MV Bill, artista. Acho importante as pessoas da Cidade de Deus estarem discutindo e apresentando a realidade da favela.

E o que você leva do FSM?

Eu trouxe as minhas experiências e levo um grande aprendizado. Ontem eu passei na Cidade do Hip-Hop, em um galpão onde estava tendo uma discussão sobre a ausência da questão racial nas letras de rap. Eu achei legal o fato de ter pessoas do rap do Brasil inteiro se reunindo para rever os conceitos e as táticas. Toda a discussão é muito válida, mas é muito importante ir além da discussão.

Existe alguma articulação da Cufa com as outras inciativas comunitárias de outras favelas ou da própria Cidade de Deus?

Existem algumas conexões, e outras que não são tão necessárias, o que não quer dizer que trabalham como inimigos. A conexão se dá a partir do momento que se está fazendo a mesma coisa, que tem o mesmo sentimento.

Em que lugares a Cufa tem representantes?

Cidade de Deus, Jacaré, Acari e está surgindo uma nova na Pedra do Sapo, no Complexo do Alemão. Além disso, tem muitos simpatizantes pelo Brasil. Alguns se denominam como integrantes, como em Cuiabá, no Mato Grosso, ou Minas Gerais. Mas nada de querer controlar o projeto de ninguém. Só damos o suporte, às vezes verbal, financeiro, se a gente puder fazer a ponte com alguma coisa, mas cada um toca os seus próprios projetos.

Posted by Klaylton Fernando on 12:39. Filed under , . You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0

0 comentários for Coletiva com MV Bill

Leave comment

Deixe seu comentário!!!

Artigos Recentes

Últimos Comentários

Eventos