A arte de provar que é arte
Quem estranhou a falta de glamour das noites clássicas, pode ter percebido outra coisa na Noite de Abertura do Festival: o hip hop veio para ficar entre os grandes espetáculos.
A primeira noite do Festival de Dança de Joinville, na quarta-feira, foi de opostos. O contraste, aguardado, era entre as duas atrações da noite: o espetáculo do grupo de dança de rua paulista Discípulos do Ritmo, que levou ao palco o carismático “Geometronomics”, e a da companhia francesa S’poart, que ofereceu “In Vivo”, mistura pouco conhecida (na verdade, nunca vista pelo público brasileiro) de hip hop e dança contemporânea. A primeira a se apresentar foi a Discípulos, com sete dançarinos.
Entre eles, o coreógrafo, o alemão de 39 anos Niels Robitzky, conhecido por Storm, grande nome do hip hop europeu. E o fundador da companhia, o paulista de Andradina Frank Ejara, de 36 anos. “Geometronomics” – junção da raiz latina “geo”, ou “terra”, e “metronomics”, ou metrônomo, o instrumento usado para marcar o tempo na dança – agradou o público porque é, antes de tudo, um espetáculo alegre. Segundo Storm, a ideia é “mostrar a sofisticação dos movimentos importantes para o b-boy [dançarino de hip hop], a forma do ritmo, porque tudo na vida tem seu ritmo”.
A montagem da Discípulos reúne técnica e pesquisa de hip hop. Os principais estilos estão lá. O locking (popularizado por James Brown) e o popping, mais estático, que exige sincronia de braços e pernas. E o break, as piruetas de que o público tanto gosta. Não é só isso, claro. “Geo” tem tratamento de espetáculo conceitual. Num telão, imagens mostram o ritmo do dia-a-dia. Elevadores, escadas rolantes, vitrolas e, é claro, o metrônomo.
Cada um com suas formas geométricas – trocadilho com o nome do espetáculo – que também dão a forma para a marcação dos dançarinos no palco. Todos têm número solo. Há vários momentos bem-humorados para cativar o público (como o jogo de futebol que divide os dançarinos em times). Mas atraíram a maioria dos aplausos os momentos individuais com os passos mais desafiantes. No caso de Ejara e de Storm, o popping. E no de Ramon, Casper, Andrezinho, EV e Jefinho, o break.
“Geo” tem essa vantagem, que conta muito em grandes festivais. Mesmo o público que não tem base, paciência ou interesse para com- preender o conceito pode se divertir. É o tal carisma do hip hop, que fez do ritmo um dos mais procura- dos do festival. “Usamos músicas da nossa época e fazemos uma dança que esta se formando na nossa época. Sendo assim a identificação o do público com nossa dança é grande, acredita Ejara.
Storm remixou a trilha sonora do espetáculo (“não me considero um músico bom o suficiente para compor”, afirma) e pensou a iluminação. “Geo” havia sido encenado pela última vez em janeiro, na França. Storm teve tempo para apenas um ensaio antes da apresentação, na própria quarta. Ainda assim, dançou sorrindo. E pareceu gostar do calor do público mesmo que, de certa forma, saiba que (como sempre), isso não signifique vencer o estereótipo na cabeça de quem aplaude. “Faz parte da missão”, acredita.




